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sexta-feira, 20 de junho de 2008

O Meu Olhar - Fernando Pessoa

O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
de, vez em quando olhando para trás…

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…

O Mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…

2 comentários:

mutante disse...

ah Fernando Pessoa... perfeito! Talvez eu deva aprender mais essa lição com ele, pensar não tem me feito nada bem...
Talvez a questão chave seja essa: não pensar demais...
beijo.

Thatha disse...

Sim, eu também preciso aprender isso.
Penso pouco, mas esse pouco, acho que já é muito rs.
Entende?
Beijo